Nossa História

 
  Missão
  O caminho de Itacaré
  Referências

          Tudo começou em 1989, quando um grupo de pessoas decidiu dar início a um projeto de produção autogestionária. Há muito discutíamos e trabalhávamos (veja o texto Ludens) com o tema autogestão, e optamos por vivenciar um projeto em grupo em nossas vidas produtivas. Muitas idéias surgiram – um restaurante, um hotel – mas decidimos por uma editora, já que tínhamos alguma experiência na área com produções "low-tec" (sem nenhuma tecnologia) de revistas e pequena distribuição de material impresso de alguns grupos anarquistas. Surgiu, então o projeto do Livro, no qual passávamos nosso recado, através de frases, poemas e imagens, selecionados cuidadosamente de inúmeras fontes e pessoas. A idéia era trazer para o dia-a-dia textos e imagens que produzissem uma reflexão crítica sobre temas do cotidiano, tudo regado a muito humor, irreverência e lirismo. No início fizemos tudo manualmente: montagem, impressão em serigrafia, encadernação das capas e acabamento final, numa pequena tiragem de 500 unidades, que em menos de uma semana se esgotou.
            No ano seguinte retomamos o projeto, já com o nome de "Archipélago" e com apenas três das sete pessoas iniciais, aumentando a tiragem para 5.000 unidades. Toda a distribuição foi feita através de pessoas que participavam dos grupos de Ludens nas várias capitais: nos bares, no trabalho, em shows, etc, já que, de cara, as papelarias rejeitavam um produto tão "diferente" em forma e conteúdo - na época, não havia nenhum produto similar colorido ou opinativo como o nosso.

          Paralelamente ao projeto que se iniciava em São Paulo, outros grupos se formavam para outros projetos autogestionários em outras capitais: um bar em Salvador ("Tesão e Cia.") e uma confecção em Recife. Éramos quase todos membros do Grupo Experimental, que reunia as pessoas que trabalhavam com o Ludens e outras que o estudavam. Estes outros projetos, apesar da importância e amplitude a que chegaram, foram desfeitos e algumas pessoas se reuniram ao grupo da editora, momento em que começamos a ampliar o grupo também em São Paulo.

          Com a tiragem aumentando, ano após ano, pudemos pensar na sobrevivência de um número maior de pessoas. Para isso, necessitávamos nos organizar para criar métodos de comunicação e decisão entre todos. Neste momento em que chegamos a ser vinte e cinco pessoas, surgiu a Editora da Tribo. Nos reuníamos para avaliar o trabalho de cada um, para decidir quase todos os aspectos do projeto e, inclusive, para avaliar quanto cada um ganharia do lucro gerado. As diferenças não ultrapassavam 2 para 1, mesmo entre o boy e a gerência financeira. Nesta mesma época outros dois projetos foram iniciados em São Paulo, mas se desfizeram ao longo de poucos anos: um bar, restaurante e lojinha, tocados por pequenos grupos cooperados, onde também se ministravam aulas de capoeira; e a formação de uma cooperativa de acabamento gráfico, com a aquisição das máquinas necessárias e a incorporação de pessoas saídas de empresas da área gráfica.

        Muita gente – de punks a administradores de empresas, de professores de capoeira a músicos – e muita música – éramos rock, hardcore, mandinga e pagode - todos juntos, tentando formar uma ética comum e dividindo boa parte da vida (no mínimo a produtiva). Discutindo nossas dificuldades, desafetos, inseguranças e desconfianças, mas também nossa motivação e prazer de convivência. A cooperativa não saiu – mesmo com a orientação de profissionais especializados, o processo era bastante burocrático e exigia muito dos envolvidos – e o "projetão" (como chamávamos o projeto do bar/restaurante/lojinha/etc) perdurou por mais alguns anos, até se tornar inviável.

De toda essa gente, ficamos em onze pessoas, entre Sampa, Salvador e Porto Alegre. Em menor número, porém mais coordenados e buscando uma maior eficiência e profissionalismo no que fazíamos, pudemos, ao longo de 5 anos, dividir igualmente o que ganhávamos, buscando qualidade em nosso ofício.

Algumas crises econômicas sucessivas (mudanças de moeda e o famigerado Collor) nos obrigaram, novamente, a reduzir o grupo para os atuais 5 sócios. Processo discutido amplamente e acordado por todos, teve como resultado o surgimento de alguns trabalhos coordenados com as pessoas que saíram, mantendo assim um vínculo, por vezes operacional, no mínimo de cumplicidade. Uma batalha sempre esteve presente, paralela à nossa luta pela sobrevivência financeira: imprimir qualidade às nossas relações pessoais ampliando-as além do processo produtivo da Editora, e criar uma relação trabalho x tempos livres mais humana, mais criativa, menos opressora. Esta, bem mais difícil.

          Ao longo de 20 anos, a Editora produziu, além dos livros, cadernos, índices telefônicos, um livro de poesia, cartões postais, adesivos, colantes, capas de nylon, pôsteres e camisetas. Existem outros tantos produtos esperando para serem produzidos. Hoje, os sócios trabalham em São Paulo, São José do Rio Preto e Brasília, terceirizando alguns processos que duramente mantivemos em nosso controle durante anos, como o despacho, para nos dedicarmos ao ofício que melhor sabemos fazer: criar e fazer chegar até você nossas idéias, nossa luta diária, nossa utopia, nossa insistência em nos comunicar. Em troca, queremos que você opine: concordando, discordando, criticando, interferindo enfim. Gostamos muito dos produtos que levamos até você (já são mais de um milhão e meio de livros ao longo destes anos), mas gostamos muito mais de "como" escolhemos fazê-lo.